IA sem professor não funciona
- Paulo Dantas

- 11 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2025
A pesquisa TIC Educação 2024, recém-lançada pelo Comitê Gestor de Internet do Brasil, revela uma contradição preocupante no cenário educacional brasileiro: enquanto as tecnologias digitais avançam rapidamente nas escolas, a formação dos professores para lidar com elas não acompanha o mesmo ritmo. Apenas 54% dos docentes participaram de alguma capacitação sobre tecnologias digitais nos últimos 12 meses, uma queda significativa em relação aos 65% registrados em 2021, durante a pandemia. Mais alarmante ainda é que 77% dos professores apontam a falta de formação como o principal obstáculo para utilizar tecnologias em sala de aula.
77% dos professores apontam a falta de formação como o principal obstáculo para utilizar tecnologias em sala de aula.
Essa lacuna formativa se torna ainda mais crítica diante da chegada da Inteligência Artificial nas escolas. Enquanto 43% dos professores já utilizam ferramentas de IA generativa para preparar conteúdos didáticos — proporção que chega a 58% entre docentes do Ensino Médio —, apenas 33% dos alunos foram ensinados a identificar erros e vieses nesses materiais. A discrepância revela que os educadores estão adotando tecnologias sem o preparo necessário para mediar seu uso de forma crítica e responsável. Entre os docentes que participaram de formação continuada, somente 59% tiveram acesso a capacitações sobre IA em atividades educacionais, e ainda menos — 39% — sobre computação, programação ou robótica.
O desafio se estende à educação digital como um todo. Embora 75% dos professores abordem temas como cyberbullying e discriminação online com seus alunos, assuntos fundamentais como privacidade de dados, algoritmos e proteção digital são trabalhados por menos de 40% dos docentes. A situação se agrava nas escolas municipais, onde 86% dos professores relatam ausência de formação adequada. Paradoxalmente, 64% dos docentes precisaram apoiar alunos em situações sensíveis online nos últimos 12 meses, demonstrando que a demanda por orientação existe, mas os educadores carecem de preparo sistemático para atender essa necessidade crescente.
A pesquisa também evidencia que os professores reconhecem o valor da formação quando a recebem. Entre os docentes que participaram de capacitações, 76% afirmaram que elas contribuíram significativamente para a adoção de novos métodos de ensino, e 67% destacaram o impacto na orientação dos alunos sobre uso crítico e seguro das tecnologias. Nas escolas municipais, a proporção de professores que trabalharam temas sobre saúde mental e tecnologias digitais saltou de 55% em 2021 para 86% em 2024, demonstrando que investimento em formação produz resultados concretos. O caminho à frente exige políticas públicas robustas que priorizem a capacitação contínua dos educadores, não apenas em aspectos técnicos, mas sobretudo na mediação pedagógica crítica das tecnologias digitais.





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