Reflexões sobre a profissão docente: passado, presente e futuro
- Monica Freire
- 3 de dez. de 2025
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Passado
Nos anos 1970, minha mãe costumava dizer que, embora mal remunerados, os professores ainda tinham status social. Eram vistos como referências morais e intelectuais.
Quando iniciei minha carreira docente, na segunda metade dos anos 1980, essa imagem já estava em declínio. O salário seguia baixo, mas o respeito havia diminuído e a profissão começava a ser associada à precarização. Dizer que era professora costumava gerar olhares de pena e, às vezes, de desdém.
Na década de 1990, já na graduação em Letras (Português-Inglês) na UFRJ, percebi o desencanto se instalando entre meus próprios alunos, futuros professores. Muitos sonhavam em passar em um concurso público “porque dava menos trabalho” do que lecionar na rede básica.
Os problemas e desafios haviam aumentado: além de salários baixos e pouca valorização social, o docente lutava contra estruturas escolares precárias, longas jornadas de trabalho e falta de recursos pedagógicos, entre outros.
Foi então que compreendi que, para continuar na profissão, não bastava vocação. Era preciso resistência. Entendi ali que a docência brasileira entrava em uma nova era: a da sobrevivência.

Presente
Aí vem uma pergunta: como esse passado contribuiu para moldar o presente?
Ensinar hoje exige mais do que preparo pedagógico - exige fôlego. A sala de aula do século XXI carrega todas as demandas de sempre e muitas outras que surgiram sem aviso: tecnologia, burocracia, lacunas de aprendizagem, questões emocionais e sociais que transbordam para dentro da rotina do professor.
A docência, que sempre foi uma profissão de múltiplos papéis, agora se multiplica ainda mais: o professor é mediador, orientador, conselheiro, gestor de conflitos e produtor de conteúdo digital. O tempo para planejar, refletir e se formar se perde entre formulários, relatórios e plataformas.
A desvalorização continua sendo um tema central, mas ganhou novas formas. O reconhecimento simbólico diminuiu, e o reconhecimento material raramente acompanha a complexidade do trabalho. Pesquisas recentes mostram que a maioria dos docentes se sente sobrecarregada e emocionalmente esgotada (Instituto Península, “Professores e a pandemia”, 2022–2023, e Todos pela Educação, “Relatório Profissão Docente”, 2023). O tal burnout docente deixou de ser exceção e virou rotina.
A reportagem da FAPESP “Teaching profession at risk” (outubro 2023) relata que, além de salários inadequados e salas superlotadas, há grandes lacunas de aprendizagem após a pandemia, o que contribui para a desistência de docentes. Uma pesquisa do Instituto Semesp (Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil, março 2024) indica que 79,4 % dos professores entrevistados já pensaram em desistir da carreira; entre os principais motivos apontados: falta de valorização/estímulo (74,8 %), falta de disciplina/interesse dos alunos (62,8 %), falta de apoio e reconhecimento da sociedade (61,3 %) e falta de envolvimento das famílias (59 %).
Em meio à escassez, será que há quem continue acreditando que a educação é o espaço onde ainda é possível transformar vidas? Esse equilíbrio entre cansaço e propósito talvez seja o retrato mais fiel da docência brasileira atual.
Futuro
A docência na educação básica carrega uma contradição antiga: é uma das profissões mais essenciais e, ao mesmo tempo, uma das menos valorizadas. Entender como esse quadro se consolidou — e por que se agravou nos últimos anos — é fundamental para pensar o futuro de quem ensina e aprende no Brasil.
Falar sobre o futuro do professor é, em parte, falar sobre o futuro da própria escola. Se quisermos que ele seja promissor, será preciso reconstruir as bases da profissão e não apenas remendá-las.
Me parece essencial recolocar o professor no centro das políticas educacionais de forma efetiva, com voz ativa e autonomia real. Valorização não pode se limitar ao discurso: precisa significar carreira, tempo, condições dignas para planejar e aprender e apoio socioemocional.
Também será necessário repensar a formação docente, aproximando-a das práticas contemporâneas e das realidades locais. A tecnologia pode ser aliada desde que venha acompanhada de suporte, formação e propósito pedagógico, não como imposição ou na forma de previsões apocalípticas perversas: se não dominar IA, vai perder o emprego; um robô vai te substituir; a aprendizagem vira dado, o professor vira ruído.
Mas o futuro da docência não depende apenas de políticas. Depende também de um novo pacto social, no qual famílias, gestores e sociedade reconheçam o valor do ato de ensinar.
Resgatar o respeito simbólico que minha mãe conheceu nos anos 1970 pode parecer utópico, mas é justamente essa utopia que mantém viva a esperança de quem, todos os dias, insiste em ensinar. E para além da utopia, resgatar a profissão docente é, em última instância, garantir a possibilidade de uma educação sustentável, eficaz, humanizada e, consequentemente, uma possibilidade de um futuro concreto para as próximas gerações de brasileiros.

