Como atenuar os filtros afetivos de alunos adultos

Atualizado: 7 de fev.

Juliana Miranda: Sou formada em Publicidade e Propaganda pela faculdade Cásper Líbero e dei meus primeiros passos com o ensino da língua inglesa em 2008, depois de uma temporada estudando em Londres. Tenho entre minhas especializações profissional o certificado CELTA. Nesses quatorze anos de ensino venho me dedicando ao ensino de adultos, principalmente em ambiente de negócios.





O objetivo deste artigo é mencionar algumas das formas de atenuar os filtros afetivos dos nossos alunos adultos. Quando ensinamos adultos, principalmente uma língua adicional, há muita coisa envolvida. É pouco provável que você esteja diante da primeira tentativa de aprendizado desse aluno. Muitos carregam as marcas de tentativas frustradas de aprendizado. E com a proliferação de cursos e metodologias, ditas revolucionárias, é possível que essa frustração tenha aumentado depois de diversas tentativas. Portanto, tão importante quanto ter um plano de aula bem elaborado é conseguir entender algumas das nuances que afetam o aprendizado desses alunos. Krashen (1986) afirma em sua hipótese do filtro afetivo que motivação, autoconfiança e ansiedade são alguns dos fatores que desempenham um papel importante no aprendizado de uma língua adicional. Se tratando de adultos as razões que levam a esses fatores podem ser diferentes de outros grupos etários, por isso é importante compreender esses aspectos com o objetivo de minimizá-los, criando assim um ambiente mais acolhedor por todo o período de estudo, o que colabora inclusive para reduzir desistências ao longo do curso.

Alunos adultos que procuram por aulas em geral tem como motivação a vida profissional. E por mais que essa motivação pareça suficiente, ela em geral vem acompanhada de uma grande pressão, afinal seu emprego ou seu desenvolvimento profissional pode estar atrelado à sua evolução linguística. Ou seja, mesmo havendo motivação, há uma grande ansiedade por acelerar o processo e alcançar logo a habilidade desejada. Isso se soma à ansiedade que já é inerente ao processo de aprendizado de uma língua adicional, tornando o cenário de ensino ainda mais desafiador. O aluno pode ter sua autoconfiança abalada, afinal, ele está tentando aprender a língua há tanto tempo, percebe que outras pessoas já conseguiram ou estão com o inglês mais avançado que o dele, o que o leva a sentimentos de culpa.

A falta de clareza dos alunos com relação às suas próprias expectativas - muitos chegam com uma ideia fixa de fluência, sem refletir sobre qual tipo de fluência eles buscam e por que precisam dela - também pode aumentar a ansiedade e diminuir a motivação.



É comum que um aluno adulto chegue com esses três elementos - motivação, ansiedade e autoconfiança - em total desalinhamento, e portanto, com seus filtros afetivos bastante fortes. Então como atenuá-los?


Podemos começar buscando encontrar uma motivação genuína. A motivação

revestida de pressão precisa ser revisada e não nos interessa agora. Que os nossos alunos precisam aprender inglês já sabemos, mas é fundamental que eles tenham clareza de que isso não vai acontecer do dia para noite. É importante fazer com que a motivação inerente ao início do processo de aprendizado se mantenha pelo tempo necessário para o desenvolvimento linguístico. Por isso é interessante desenvolver com seu aluno uma rota de conquistas, entender onde é seu ponto de partida e suas metas e com isso programar o que é preciso para chegar ao ponto final. Sempre lembrando que até o objetivo final serão várias paradas. Essas paradas são fundamentais para que o aluno possa ver o trajeto que ele já fez e os avanços conquistados. A sensação de progresso é uma ótima forma de manter seus alunos motivados, portanto esses pequenos progressos devem ser celebrados.


A motivação alinhada ajuda a manter os níveis de ansiedades baixos, pois o aluno passa a compreender melhor o processo de aprendizado de uma língua adicional, se tornando também mais ativo nesse processo. As expectativas e desejos podem ser revistos e objetivos estabelecidos novamente, dentro das possibilidades de tempo e disposição do aluno.


Agora podemos abordar a autoconfiança, essa que em geral vem abalada por dois fatores: o histórico de tentativas que não resultaram no prêmio final, a fluência. E em segundo lugar pela falta de espaço em ambientes adultos para tentativa e erro. Muitos levam essa mentalidade para seus ambientes de estudo, tentando evitar assim qualquer possibilidade de erros, mesmo em ambientes controlados. O primeiro fator pode ser superado com um trabalho motivacional, como já mencionamos antes, e também com abordagens menos rígidas de metodologia A ou B, facilitando assim a assimilação conforme a necessidade de cada aluno.


Muitas das metodologias e abordagens desenvolvidas ao longo do tempo e impostas nas salas de aula não conseguem satisfazer as múltiplas demandas desses alunos. Esse fenômeno é descrito por Kumaravadivelu (2006) como o período pós método, onde macroestratégias devem ser mais valorizadas para desenvolver, entre outras habilidades, a autonomia do aluno, maximizando suas chances de aprendizado. Porém vale ressaltar que isso não significa aulas desestruturadas, apenas que há espaço para diversos métodos.


Já o segundo fator pode ser superado com uma cooperação entre professor e

aluno. Antes de tudo é preciso ressaltar aqui que muitos desses alunos adultos tiveram um processo de letramento e ensino diferente daqueles que hoje são comumente discutidos pelas práticas ativas. Muitos ainda se norteiam pelos dogmas de apresentador (professor) e espectador (aluno), e de erro e acerto. Somado a isso, a pressão corporativa onde o erro é visto como falha faz com que nossos alunos reproduzam esses padrões em sala.


A seguir listo algumas das formas de minimizar, ou neutralizar, esses efeitos em sala :


● Incentivar tentativas de expressão em diversos contextos com atividades que ofereçam, além da prática estrutural, possibilidades de pensamento crítico e sua expressão.


● Oferecer feedbacks construtivos quando erros ou deslizes acontecem, normalizando a tentativa e erro. Identificar quais erros ou deslizes precisam ser trabalhados e em quais momentos, pois quando corrigimos excessivamente nossos alunos parte da sua autoconfiança é comprometida.


● Contemplar saberes prévios e utilizá-los como caminhos para novos aprendizados. Partir do saber prévio para desenvolver um melhor uso de estruturas adicionando novos temas é uma ótima estratégia para desenvolver autoconfiança pois realça a percepção de que já se foi capaz de adquirir conhecimento, aumentando assim a confiança de que é possível continuar aprendendo novos conceitos.


Todos esses fatores colaboram para tornar o ambiente da sala de aula um local seguro, onde o erro não é penalizado, mas usado como instrumento no processo de aprendizado.


Com os filtros afetivos atenuados, as chances de aulas mais enriquecedoras tanto para o aluno quanto para o professor são maiores.


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Referencias:

Krashen, Stephen. Theory of second language acquisition (1986)

Kumaravadivelu, Bala. Understanding language teaching (2006)

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