No meio do caminho havia (mais de) uma pedra

Há três anos tomei a decisão mais difícil da minha carreira profissional até o presente momento: troquei um emprego estável por um emprego incerto. Pode parecer mais um caso da mocinha que encontrou o seu propósito e foi feliz (e rica) para sempre. Porém, aviso de antemão que a minha história não termina assim. Aliás, a minha história ainda está longe de terminar, eu tenho mais de 30 anos e materialmente falando, menos que quando larguei o emprego.

O começo se deu da seguinte forma: como boa capricorniana, elaborei um plano antes de largar tudo e me arriscar em uma outra profissão: desenhei o melhor, o médio e o pior cenário possível. É valido ressaltar que de nada adianta sonhar sem um plano de ação eficiente. Afinal, não se vive de ar, boletos chegam e é preciso dar conta deles. Tive a (falsa) segurança de que se tudo desse errado, pelo menos estaria preparada para o que viesse. Pois bem, a vida veio e confesso que não estava, de fato, preparada. Para a minha surpresa, conheci a terapia nesse período e não acho que foi mera coincidência. Eu que achava que trocaria uma carreira por outra, não fazia ideia do tanto de “carreiras”, ou melhor, desafios que me aguardavam pela frente.

Eis que no meio do caminho, havia (mais de) uma pedra.

Nos últimos três anos fui a dona da minha marca, arrisquei-me em uma sociedade, coordenei uma escola, mudei de país, viajei pela Europa, brinquei um pouco na área de visual merchandising e personal styling, fui vendedora de loja, bati de porta em porta pedindo dinheiro para instituição carente e ainda caí em alguns contos do vigário (exatamente o que você está lendo, os britânicos também sabem passar a perna nos coleguinhas). Ouso dizer que praticamente consegui dar vida a minha própria versão “50 anos de progresso em 5” de Juscelino Kubistchek. Aventuras estas que possivelmente me renderiam um livro ou, no mínimo, boas histórias e excelentes experiências profissionais.

Isto posto, se não sou um case de sucesso da mocinha milionária antes dos 30, o que a minha trajetória me ensinou e no que ela lhe pode ser útil então?

A minha trajetória apenas comprovou algo que nunca havia sentido na pele no âmbito profissional: a importância do erro em qualquer processo. Outro dia, li um artigo que discorria sobre a importância do erro no processo de aprendizagem e como o ambiente educacional ainda é falho em proporcionar experiências significativas aos alunos. Como pedagoga nata e por formação acadêmica, sempre defendi a tentativa. Estar em sala evidenciava diariamente como o ditado “é errando que se aprende” não é ditado, e sim realidade. Agora, mais madura, a vida me mostrou que no âmbito profissional não é diferente. Assim como não existe aprendizagem significativa sem o erro, não existe um profissional multifacetado sem a experiência, ou melhor, sem as experiências. Algo que as faculdades e universidades não conseguem suprir somente (leia-se somente) com livros e conteúdos programáticos, e que a prática do mercado é capaz de fomentar na medida certa para formar um profissional melhor preparado para dançar conforme a música.

Muito se discute sobre as mudanças do mercado de trabalho e como este exige cada vez mais profissionais que sejam criativos, solucionadores de problema, emocionalmente inteligentes além de tecnicamente competentes. Algo bonito de ler, porém quase impossível de encontrar. Como parte de uma geração taxada de “mal preparada para as pedras no meio do caminho”, garanto que não estamos preparados também porque não somos incentivados a errar mais. Desde muito cedo, ainda em período pré-escolar, o erro é podado enquanto o acerto é exaltado. A criança nasce curiosa e perde o lado explorador porque a vida escolar simplesmente não o valida ou encoraja. Desta forma, quando não há incentivo para a experimentação, a prática e a mão na massa, as consequências na vida adulta são drásticas. Consequências como profissionais pouco preparados para atuar em um mercado que, independentemente da área, deixou de exigir somente competências técnicas e específicas e passou a levar em conta profissionais resilientes, criativos e fora da caixa.

Mesmo após ter trabalhado por 10 anos em um emprego estável que me ensinou muito, somente no auge dos meus 30 anos consigo me considerar uma profissional multifacetada, capaz de pensar fora da caixa. Não porque sou especial, nasci virada para a lua ou porque estou me apropriando de um discurso bonito para impressionar possíveis novos chefes, mas porque vivi realidades conflitantes. Fui a dona do negócio e a funcionária da base da pirâmide; cursei pós graduação e ganhei salário mínimo; trabalhei ao lado de estudantes e de PhDs; e consegui extrair de cada cargo ou situação algo funcional para aplicar na rotina do trabalho. Foi no brincar de experimentar que ganhei o título mais importante da minha carreira profissional: o de eterna aprendiz. Adquiri a consciência de que não importa o papel exercido ou a empresa para qual trabalhe, sempre terei algo a contribuir e sempre terei algo a aprender. O próprio Obama disse na sua última vinda ao Brasil, em sua palestra no VTEX day, que ninguém deve ter medo de trabalhar com pessoas mais inteligentes, afinal nenhum líder pode dominar todos os temas.

Muito se especula sobre o futuro das profissões e o quanto a tecnologia ainda vai mudar as formas de trabalho e as relações profissionais, mas uma coisa é certa: o futuro não pode ser previsto. Infelizmente, ou felizmente, ainda não temos a capacidade de prever os acontecimentos. No entanto, os que se mantém em alerta sabem que ficar parado em um momento de mudanças tão velozes não é opção viável. Consequentemente, quem se coloca no papel de eterno aprendiz vira o protagonista da sua história e é visto como líder, independentemente do cargo que assume, seja na vida pessoal ou no trabalho.

Quanto a minha história? Esta não acabou. Reitero que me sinto melhor preparada para os desafios que ainda virão e sei que não serão poucos. Como disse no início deste texto, tenho mais de 30 anos e não sou milionária, materialmente falando. Mas se você leu com atenção, você percebeu que eu adquiri algo mais importante que um saldo na conta bancária. Porém, ainda preciso trabalhar para pagar meus boletos, então a vida segue para os que, assim como eu, não tem preguiça de botar a mão na massa e fazem das pedras no caminho, pontes sobre as águas, que abrem novos caminhos e trazem novos desafios.

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