Dificuldades ou transtornos de aprendizagem: O papel do professor no diagnóstico e intervenção

August 14, 2019

Todos nós professores em algum momento da nossa trajetória profissional nos deparamos com alunos com dificuldades em aprender. Por vezes, a dificuldade do aluno é tão grande que logo já nos perguntamos: será que ele tem “alguma coisa”?

Nem sempre o professor está preparado para lidar com alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem, especialmente porque muitas vezes é difícil identificar a causa. Muitos sintomas de transtornos são confundidos com personalidade ou falta de educação e muitas características normais para a idade da criança são confundidos com sintomas de transtornos.

Esse texto foi baseado em aulas e estudos de professores e autores como a neurocientista e psicóloga Profa. Dra. Nádia Bossa, a neuropsicóloga Profa. Dra. Sandra Lia Rodrigues, a pedagoga e psicopedagoga Profa. Dra. Selma Martinez Lara, o pesquisador Prof. Dr. Lucelmo Lacerda e a psicóloga e psicopedagoga Profa. Dra. Aída Brito. Sua finalidade é explicar de forma simples e objetiva algumas causas que atrasam ou impedem a aprendizagem para auxiliar na identificação e manejo das mesmas, mas ressalto o caráter introdutório deste post. O assunto é extenso e há diversas estratégias além das que menciono para lidar com cada uma das causas. Deixo no final sugestões de pesquisa caso precisem ou queiram se aprofundar mais sobre cada um dos assuntos tratados.

 

Ajudando o aluno aprender

 

Para começar, é importante destacar a diferença entre dificuldade de aprendizagem e transtorno de aprendizagem.

O transtorno é oriundo de causas orgânicas, ou seja, podem ser causados por fatores genéticos e/ou neurobiológicos e, portanto, ensina-se estratégias para o indivíduo lidar com os sintomas durante toda a sua vida.

Já a dificuldade não precisa durar por toda a vida. Ela pode ser solucionada, já que pode partir de diversas causas externas e internas, como sono, fome, motivação, ambiente de estudo (na escola e em casa) e até mesmo a metodologia a qual o aluno é exposto.

Desta forma, quando o professor identifica que um aluno não está conseguindo apreender a matéria, o primeiro passo é esgotar as possibilidades de haver uma dificuldade de aprendizagem. O que o docente pode fazer em sala:

- observar se há dificuldade para ouvir ou enxergar;

- observar se o aluno tem suas necessidades básicas atendidas (ex.: se tem sono ou fome constantemente durante a aula);

- atentar-se à possibilidade de haver problemas pessoais ou familiares (ex.: divórcio dos pais);

- aplicar diferentes estratégias e metodologias de ensino-aprendizagem (ex.: dar atividades que considerem os diferentes estilos de aprendizagem, possibilitar atividades lúdicas em grupos maiores e menores).

Se esgotarmos todas as ações acima e a aprendizagem continuar sendo prejudicada e, claro, se percebermos que o aluno possui sintomas de algum transtorno de aprendizagem, o professor deve comunicar o coordenador e o psicopedagogo da escola para conversarem com os pais e possibilitar que a criança seja encaminhada para os profissionais necessários.

 

Mas como o professor pode identificar os transtornos e como lidar?

 

Cada transtorno de aprendizagem carrega diferentes sintomas. Muitos professores já conhecem a maioria deles, mas muitas vezes fica a dúvida se aquela característica é um sintoma ou se é própria da personalidade da criança. A chave é perceber se essas características:

- são generalizadas (acontecem constantemente em mais de um ambiente, independente da pessoa ou da situação);

- frequentemente impedem ou atrapalham o desenvolvimento cognitivo, social, motor e/ou afetivo da criança.

Citarei aqui brevemente sete transtornos de aprendizagem, suas características e algumas ideias de como facilitar a aprendizagem para esses alunos.

 

TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade*
*pode vir ou não acompanhado da hiperatividade

- Dificuldade excessiva em focar-se por longos períodos de tempo

- Dificuldade em seguir regras e cumprir prazos

- Dificuldade em memorizar, organizar e interiorizar conceitos

- Dificuldade em fazer conclusões, análise e síntese de atitudes

- Se acompanhado de hiperatividade, pode apresentar impulsividade

O professor pode:

  • Colocar o aluno próximo de si;

  • Modificar o tom de voz enfatizando os aspectos mais importantes;

  • Utilizar mídias audiovisuais nas aulas;

  • Criar uma rotina com um passo-a-passo claro para o aluno não se perder nas suas responsabilidades.

TEA - Transtorno do Espectro Autista

 

Há várias características conhecidas do TEA, mas nem todos os indivíduos apresentam os mesmos déficits. Por exemplo: há os autistas de grau severo e os de grau leve; os que não falam, e os que falam; os que mantêm contato visual e os que não mantêm. O único déficit que necessariamente está presente em todos estes indivíduos é o da interação social. Porém, é importante conhecer os outros sintomas que comumente associam-se ao TEA:

- Dificuldades na interação e socialização

- Apresenta atrasos no desenvolvimento e dificuldades na comunicação

- Apresenta comportamentos repetitivos

- Gosta de seguir padrões e rotinas (ex.: sempre enfileira objetos da mesma forma; sempre sai da sala pelo mesmo lado)

- Não responde quando chamado pelo nome

- Pode ter hipersensibilidade sensorial (busca esquivar-se de estímulos) ou hiposensibilidade sensorial (busca estímulos constantemente)

- Dificuldade em abstrair

O professor pode:

  • Criar uma rotina e manter um quadro visual para segui-la (com imagens literais que representem as atividades - leitura, escrita, hora do lanche...);

  • Procurar oportunizar a interação entre os colegas (fazer as atividades junto ou perto dos outros alunos);

  • Quebrar padrões para ajudá-los a se tornarem mais flexíveis e tolerantes a mudanças (ex.: sentar em outra carteira; ir para o recreio por outro caminho);

  • Utilizar estratégias de estímulo-resposta para ajudar na compreensão e execução de atividades.

 

TOD - Transtorno Opositor-Desafiador

 

- Frequentemente demonstra teimosia e insubordinação generalizada

- Apresenta hostilidade e sentimento de vingança

- Age violentamente (verbal ou física)

- Dificuldade excessiva em seguir regras

- Pode demonstrar atrasos de desenvolvimento, dificuldades na socialização e na comunicação

O professor pode:

  • Conversar com os pais para saber como que a criança é estimulada a seguir as regras em casa a fim de utilizar-se de estratégias parecidas em sala de aula (se possível);

  • Estabelecer regras e rotinas;

  • Deixar a criança extravasar sua raiva após contradição ou frustração - ela não é capaz de controlá-la. Conversar com a criança depois, quando tiver se acalmado;

  • Perceber se o aluno apresenta TDAH ou TEA, comumente associados ao TOD.

Os quatro “Dis-”

 

É muito comum ouvir falar em dislexia, mas nem todo mundo fala sobre disortografia, disgrafia e discalculia.

 

Dislexia

 

Há diferentes graus de dislexia. Entre as características principais, vê-se:

-  Troca de letras que podem ser parecidas ou não

- Não há constância na escrita (uma hora escreve “amicos”, outra hora escreve “amigus”)

- Não entende o que ele mesmo escreveu

- Problemas de organização espaço-temporal (ex.: problemas para ver horas)

O professor pode:

  • Ler para o aluno;

  • Incentivar a leitura e a escrita de forma dosada (qualidade é melhor que quantidade);

  • Não pedir para que o aluno leia em voz alta;

  • Proporcionar atividades que exercitem a memória global da palavra;

  • Possibilitar avaliação oral e, na escrita, não penalizar por erros ortográficos.

Disortografia

 

- Troca de letras semelhantes

- Erros consistentes

- Entende o que escreveu e percebe seus erros quando lê em voz alta (quando o erro interfere no som)

- Dificuldade na memória visual e percepção visual

- Geralmente não corta o “t” nem pontua o “i”

O professor pode:

  • Fazer o aluno refletir sobre como e por que ele escreveu de determinada forma;

  • Associar palavras ao mundo das imagens (ex.: usar sistema de cores para notar os sons e as formas escritas).

Disgrafia

 

- Origem motora: dificuldade no traçado (de letras e desenhos)

- Geralmente não há erros ortográficos

- Dificuldade em entender a letra

O professor pode:

  • Promover atividades que desenvolvam motricidade (ex.: cortar, pintar, andar em cima de uma linha);

  • Desenvolver atividades interdisciplinares para que se trabalhe a motricidade ampla e fina.

Discalculia

 

Ligada à área da matemática.

- Dificuldade em entender qual operação matemática é pedida no enunciado

- Dificuldade em entender relações de ordem, espaço, quantidade, tamanho e distância

- Dificuldade em compreender sentido numérico (5 = cinco)

O professor pode:

  • Utilizar exemplos concretos ligando a matemática a um contexto da vida real;

  • Promover atividades com estímulos visuais e concretos (ex.: pedir para a criança mover peças para entender quantidade, tamanho, operações);

  • Usar papel milimetrado para manter os números alinhados e facilitar a compreensão da operação.

 

Conclusão

 

Toda a intervenção efetiva dos transtornos leva em consideração como a criança age em diferentes ambientes. Portanto, o olhar do professor é imprescindível para que a criança tenha o diagnóstico correto e possa receber uma intervenção adequada dentro e fora da escola. Além disso, conhecendo melhor as causas da não-aprendizagem, nós professores nos sentimos mais seguros e ficamos mais bem preparados para cumprir nosso papel, garantindo melhores condições de aprendizagem para nossos alunos.

 

Sugestão de pesquisa:

1) Vídeo:

- DVDs da Coleção Psicopedagogia Transtornos de Aprendizagem por Nádia Bossa:

a. Um olhar diferenciado

b. Dislexia, disortografia, disgrafia

c. Discalculia e TDAH

 

2) Leitura:

- LACERDA, Lucelmo. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: Uma brevíssima introdução. EDITORA CRV. Curitiba, PR. 2017.

- SILVA, Tatiane Cristina Gonçalves da. TRANSTORNO OPOSITOR DESAFIADOR - Como enfrentar o TOD na escola. 2017. 48 f. Monografia (Especialização em Educação Especial e Inclusiva)-Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, 2017.

 

Daniela atua no ensino de língua inglesa há 10 anos e possui o certificado de ensino do inglês como língua estrangeira CELTA. Graduada em Licenciatura em Letras e pós-graduada em Psicopedagogia Institucional, acredita firmemente na atuação do professor como facilitador da aprendizagem. Atualmente se aventura em mais uma pós-graduação em Psicopedagogia para englobar o âmbito clínico da ocupação com o objetivo de melhor auxiliar não somente os alunos com dificuldades e transtornos de aprendizagem, mas também a escola e suas famílias.

 

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