“Socorro! Meu filho quer ser professor.”

February 11, 2019

Bem-vindos ao paradoxo contemporâneo da educação: eu quero que meus filhos tenham os professores mais incríveis e capacitados, mas jamais desejaria essa carreira para eles. Parece familiar? Salários baixos, falta de respeito dos poderes públicos, desvalorização no segmento privado, recursos escassos, dias longos com trabalho em horários não sociais, falta de oportunidades de desenvolvimento, alta demanda física e emocional... Essa realmente não parece ser uma realidade desejável para a prole advinda de um contexto educacional privilegiado. Como você reagiria, portanto, se o seu filho, que estudou nos melhores colégios, aprendeu dois idiomas, fez intercâmbio lhe dissesse que ao invés de fazer medicina ou engenharia, iria se dedicar à docência? Ou ainda, quantos pais ativamente encorajam seus filhos a considerar uma carreira na sala de aula? 

 

Existe no contexto contemporâneo uma contradição estrutural e insustentável no que tange a maneira como percebemos a educação. A profissão muitas vezes rechaçada, ridicularizada, alvo de chacota e de pena - aquela mesma que é “apenas uma vocação” - é ao mesmo tempo parte de uma base que não queremos (nem podemos) abrir mão. Pelo menos não para nossos filhos. Afinal de contas, pouco me importo com os filhos dos outros; eles podem até ter professores despreparados pois isso coloca meu filho em lugar de vantagem competitiva no mercado. O desrespeito aos professores e à educação não está apenas limitado ao olhar de descaso no almoço de família ou às piadas infames no reencontro com amigos que se consideram “genuinamente mais bem-sucedidos”. O desrespeito hoje está dentro da própria sala de aula, onde crianças e adolescentes autorizados por uma sociedade cega se sentem no direito de faltar ao respeito, diminuir e ofender o educador. Está também nos corredores da escola onde pais questionam a autoridade, o conhecimento e o preparo de profissionais da educação e não hesitam em ameaçar e intimidar instituições de ensino quando suas crenças educacionais (baseadas puramente em opiniões muitas vezes descabidas) não são acolhidas. O desrespeito também reside em instituições que, por sua vez, se rendem (reféns de uma relação comercial desesperada) a demandas assustadoras de alunos-clientes que se sentem infinitamente mais capacitados para discutir questões pedagógicas e acadêmicas do que aqueles que efetivamente dedicaram uma vida ao ofício. Na crueldade do dia-a-dia, sobrevive, de forma silenciosa e disfarçada, a máxima: “quem sabe faz, quem não sabe, ensina”.

 

Vivemos um momento de total inversão de valores no campo da educação e assistimos passivamente a gradual (e, infelizmente, justificável) perda de interesse pela profissão. As novas gerações, atentas ao cenário de profunda tristeza no qual o professor vive, optam pela nobreza, glamour e valorização de outras carreiras, enquanto as famílias aplaudem de pé essas decisões, agradecidas que seus filhos não irão sofrer em uma sala de aula. Achar que isso é normal só reforça a ignorância e a irresponsabilidade de um grupo autocentrado. No entanto, esquecemos que uma sociedade não se baseia no recorte do presente e não se sustenta em pilares frágeis. Para que a sociedade na qual vivemos vislumbre qualquer tipo de futuro sólido, superando a miopia imediatista e egoísta que abraça soluções unilaterais para seus próprios filhos, temos que nos perguntar como está sendo preparada a geração de professores dos nossos netos e bisnetos. É preciso discutir, questionar e, acima de tudo, agir em prol de um cenário minimamente mais favorável e respeitoso para uma profissão que não queremos (nem podemos) abrir mão. Bons professores não são feitos da noite para o dia. E enquanto faculdades de Letras e Pedagogia continuarem a fechar suas portas por falta de candidatos, enquanto professores continuarem sendo tratados como profissionais acomodados e de menor valor, enquanto seguirmos aceitando um investimento surreal em tecnologias e espaços físicos ao passo que profissionais angustiam salários risíveis, estaremos fadados à informalidade e falta de preparo na área que constrói os alicerces de um país.

 

Nem é preciso retomar a clássica comparação com países onde professores têm salários altos e total respeito da população porque a distância é abissal. Porém, alguma mudança precisa ser instituída imediatamente e ela deve começar com as próprias famílias ou indivíduos, cobrando das organizações maior investimento nos professores e demonstrando maior respeito a essa área do saber. Talvez possamos trabalhar apenas com o desejo de encontrar uma nova realidade onde todos os professores têm registro em carteira e são respeitados pelos seus alunos e pelos pais, que por sua vez entendem a importância de um trabalho pedagógico informado e consciente. Talvez seja mais realista sonhar simplesmente com salários justos e condições de trabalho menos primitivas, onde um suporte real é oferecido e oportunidades de desenvolvimento contínuo são multiplicadas e valorizadas. Talvez, e apenas, talvez, possamos finalmente investigar como é possível uma sociedade imaginar que seus filhos serão grandes médicos, engenheiros ou advogados sem bons professores. E talvez possamos reconhecer que é necessário trabalhar localmente - e enlouquecidamente - para que a docência seja uma carreira celebrada; trabalhar para que os pais durmam tranquilos e orgulhosos sabendo que seus filhos-professores fizeram uma escolha verdadeiramente acertada e são profundamente valorizados, ao invés de viver na angústia e no medo de testemunhar uma luta incessante de um profissional que sobrevive nas sombras de uma semi-profissão.

 

 

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