Precisamos ter uma conversa séria sobre o ensino de inglês no Brasil.

March 14, 2018

O ensino da língua inglesa no Brasil é tratado como uma atividade marginal e informal há muitos anos. É difícil identificar as razões sócio históricas que possam ter colocado essa atividade em uma posição tão frágil, mas podemos criar algumas hipóteses. O ensino de uma língua estrangeira, por exemplo, foi considerado “perigoso” por muitos anos, por acreditarem que através do idioma, uma outra cultura pretendia se instituir e se sobrepor à nossa própria; acionando alertas de patriotismo e fazendo com que o inglês fosse tratado com desconfiança e cuidado redobrado. Uma outra possível hipótese é a de que até hoje a necessidade real de usar inglês no dia a dia (para a maior parte da população) não existe – contradizendo a verdade instituída de que inglês é uma exigência, a prática se mostra um pouco diferente. Por consequência, é um conhecimento que acaba sendo menos relevante e difícil de priorizar para muitas pessoas, que buscam soluções milagrosas e rápidas. A falta de formação de profissionais qualificados e a ausente regulamentação do ensino de idiomas são outros dois possíveis motivos que fazem com que o ato de ensinar inglês seja visto como algo de menor importância no nosso país.

 

Independente das razões pelas quais nosso contexto seja tão lamentável nessa área, a verdade é que pagamos um alto preço por não conseguirmos reverter essa situação (ou sequer falar abertamente sobre o assunto). Vivemos em um país onde o inglês é ensinado por adolescentes de 15 anos que não tiveram a menor preparação para atuar como educadores, ou por pessoas que nunca tiveram nenhuma formação na área e nem pretendem se profissionalizar porque, afinal de contas, “é só inglês”. Encontramos cursos de inglês que fazem promessas irresponsáveis e trabalham apenas com o foco em comercializar a educação sem o menor comprometimento com o resultado, focando, muitas vezes, na venda de livros e não em processos acadêmicos. Convivemos com organizações educacionais que se recusam a investir no desenvolvimento profissional dos seus docentes ou em criar oportunidades para a construção de conhecimento e aumento de autonomia da sua equipe, impondo métodos engessados sem espaço para criatividade ou customização do processo de ensinar. Aceitamos professores de inglês que já atuam nas salas de aula do nosso país ao mesmo tempo em que lutam para aprender a língua – porque a verdade é que muitos não têm a proficiência necessária para se comunicar no idioma que precisam ensinar.

 

Com esse acúmulo de informalidades, acabamos aceitando e propagando mitos e criando verdades, que por sua vez são espalhadas pelas mídias sociais ou através de eficientes campanhas de marketing. Estamos rodeados por influenciadores, que se autodenominam professores, que usam gritos sem propósito, termos chulos e piadas ofensivas ao oferecer dicas desconexas do idioma pelas redes, alegando possuir um método único de ensinar; professores “nativos” que ridicularizam outros profissionais da área porque não nasceram em um país falante da língua inglesa; “metodologias” sem fundamentação acadêmica nenhuma vendidas como resposta fácil para o aprendizado do inglês. Estamos em um momento de sucateamento da nossa prática e da banalização da educação como um todo. Processo que, na minha opinião, é maximizado no segmento de línguas estrangeiras e pelo qual pagamos um preço como sociedade.

 

Ensinar é uma atividade complexa e de profunda responsabilidade. Não importa se estamos ensinando uma criança a andar de bicicleta, alunos a fazerem cálculos matemáticos ou seres humanos a se comunicarem melhor em um outro idioma. Nenhum ensinamento é menor. Nenhum conhecimento deve ser tratado de maneira leviana, pasteurizada ou superficial. Aprender uma nova língua traz inúmeros benefícios para o indivíduo e para o coletivo. Mas esses benefícios só podem ser atingidos se o ato de ensinar for tratado com o devido respeito. Por esse motivo, precisamos começar a ter uma conversa muito séria sobre o ensino da língua inglesa. 

 

*Artigo originalmente publicado no Linkedin.

 

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