top of page

Pra quê IA *não* serve na sala de aula.

  • Foto do escritor: Paulo Dantas
    Paulo Dantas
  • 17 de jun.
  • 2 min de leitura

Quando a Khan Academy lançou o Khanmigo, fiquei bem impressionado, mais pelo que poderia ser do que pelo que já era, e eu mesmo já referenciei o TED Talk do Sal Khan aqui, então acho que tenho alguma responsabilidade de atualizar o que penso sobre o assunto, especialmente porque a história do Khanmigo tem andado de um jeito que é bem revelador sobre como a gente tende a projetar nas ferramentas uma capacidade de transformação que elas simplesmente não têm sozinhas.


Collage by Valerie Chiang for Edutopia, iStock (3)


O Khanmigo foi criada numa parceria entre a Khan Academy e a OpenAI que Josh Tyrangiel descreve no livro AI for Good como um casamento estilo Las Vegas entre dois parceiros completamente desiguais, e mesmo assim foi um não-evento para a maioria dos estudantes até agora. Sal Khan disse isso publicamente, inclusive:


"for a lot of students, it was a non-event. They just didn't use it much.”


O que me interessa nessa história não é o vôo de galinha do Khanmigo em si, mas o que ele aponta. O Khanmigo não consegue perceber um estudante de verdade, não sabe quando iniciar uma conversa com sensibilidade ou quando encerrá-la, não constroi relação, não nota desengajamento. Não acho que isso seja um problema de engenharia que uma versão futura vai resolver, é uma limitação estrutural do que a ferramenta é.



Stanford há pouco mais de um mês uma revisão do estado da pesquisa sobre IA na educação básica, e o número que mais me chamou atenção foi esse: de mais de 800 artigos acadêmicos sobre o tema, apenas 20 produzem evidência causal suficientemente forte para dizer algo confiável sobre o que a IA realmente faz com estudantes e professores. E esses 20 estudos mostram um padrão bem consistente que é, no mínimo, desconfortável: quando estudantes têm acesso à ferramenta durante uma tarefa, o desempenho melhora, mas quando o acesso é removido e a avaliação é independente, os ganhos frequentemente desaparecem, e em alguns casos o desempenho é pior do que o de quem nunca usou a ferramenta.



Os resultados mais promissores, curiosamente, estão do lado dos professores e não dos estudantes. Professores com acesso ao ChatGPT gastaram cerca de 30% menos tempo planejando aulas sem nenhuma redução na qualidade, e há um dado específico que acho especialmente interessante: a IA parece ser mais útil para professores menos experientes, o que tem implicações de equidade consideráveis num sistema onde os professores mais vulneráveis costumam trabalhar nas escolas mais carentes.



Trabalho com educação há mais de vinte anos e o que essa evidência toda me sugere é que a IA tem mais potencial quando libera o professor para fazer o que a IA não consegue fazer do que quando tenta fazer o que o professor faz, porque o problema da educação nunca foi falta de conteúdo ou falta de exercícios, é falta de atenção humana qualificada e presente, e isso é uma coisa que nenhuma ferramenta vai substituir.

Posts recentes

Ver tudo
IA sem professor não funciona

A pesquisa TIC Educação 2024, recém-lançada, revela uma contradição preocupante no cenário educacional brasileiro: enquanto as tecnologias digitais avançam rapidamente nas escolas, a formação dos prof

 
 
 

Comentários


bottom of page