“Eu estou certo, você está errado”

Na mediação observo que a maioria dos conflitos interpessoais gira em torno das divergências a respeito do que aconteceu ou deveria acontecer. Gastamos tempo e energia discutindo quem disse o que, quem fez o que, quem está certo e especialmente, de quem é a culpa.


Enquanto defendemos nossas histórias e pontos de vista, supomos que o outro é o problema e nós é que estamos certos. Essa simples suposição traz um grande sofrimento aos relacionamentos.


Por que debater não ajuda?


Por uma razão simples: é muito possível que eu não esteja totalmente certo, nem tenha a compreensão total dos acontecimentos. O que eu chamo de realidade ou história do conflito é, na maioria das vezes, o que eu vejo e interpreto.


Quando duas pessoas divergem sobre comprar um carro ou andar de Uber, ter ou não ter filhos, qual escola as crianças vão estudar, onde passar as férias ou até mesmo escolher a pizza para o jantar, presumimos que a diferença encontra-se no assunto em discussão, quando, muitas vezes, o conflito está na forma como pensam sobre aquilo.


Dizemos na mediação que todo conflito tem uma história. E todos nós temos histórias diferentes a respeito do conflito. Interpretamos os fatos de acordo com as nossas crenças, experiências anteriores e informações recebidas. Os problemas começam quando partes importantes das histórias entram em choque resultando em malentendidos e interpretações equivocadas.


Não raro interpretamos as mesmas informações e acontecimentos de modo diferente. Em uma situação de conflito, é preciso entender os fatos e confrontar percepções, interpretações e valores. Nesse sentido, muitos dos nossos conflitos interpessoais são menos sobre o que é verdadeiro ou está escrito e mais sobre o que é importante. Em um contrato, por exemplo, grande parte das divergências passa pela interpretação das cláusulas, ou seja, sobre o seu significado e como impactam os envolvidos.


Conhecer e desenvolver habilidades e ferramentas de mediação e comunicação humana podem ajudar a descomplicar alguns conflitos no dia a dia. Para isso, compartilho três pistas que vão te ajudar a pensar como um mediador.



1. Seja curioso


Faça perguntas para investigar as histórias, por exemplo: O que aconteceu? Como foi? Por que? O que você pensou e sentiu quando isso aconteceu? De que forma isso te impactou? Segundo William Ury, “entender o raciocínio desenvolvido pelo outro lado não apenas é uma atividade útil, que o ajudará a resolver o problema. Esse raciocínio da outra parte é o problema”. Nas perguntas, foque no raciocínio das pessoas. As histórias que contamos revelam o observador que somos. Como aprendi, o conflito não está no problema, ou seja, nas ações, mas nos pensamentos a respeito do problema.


2. Escute


Para compreender e não para responder Escutar não é esperar a minha vez de falar. A escuta é um silêncio amoroso que reconhece o outro como legítimo na sua fala e existência. Sem escuta, não há comunicação. Acredito que escutar é se abrir para outros mundos. É conhecer outros países e se deixar tocar por novas cores, sabores, imagens, paisagens. É transcender os limites do meu mundo para o sagrado que há na experiência da conexão humana. Nesse sentido, os muros começam a cair e as pontes vão surgindo, fazendo com que nossos mundos e realidades conversem respeitosamente.


3. Adote a postura E


Em vez de dizer, “como eles podem pensar isso?”, diga a si mesmo, “gostaria de saber quais informações eles possuem que eu ainda não tenho”. Não escolha uma das histórias, acolha as duas. A postura E ajuda a reconhecer e validar a história e o raciocínio dos envolvidos. É sobre defender a sua verdade sem precisar destruir a do outro. E quem sabe abrir-se à possibilidade de que ambas as histórias podem fazer sentido ao mesmo tempo. Num conflito distanciar-se da suposição da verdade é um bom caminho para compreender o outro e a si mesmo. Isso não significa que as diferenças desaparecerão, mas que podem nos ajudar a avaliar e fortalecer os pontos de vista diante de novas informações e interpretações. Diante de um conflito pense como um mediador. Pergunte para investigar as histórias, escute o outro com atenção e adote a postura E. Essas são algumas ferramentas úteis de mediação para apoiar boas conversas, mediar relações e sustentar diálogos para convivência. Que tal começar hoje mesmo a praticar a arte da conversação?


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Referência Bibliográfica

Echeverría, Rafael. Ontología del Lenguage. JCSáez Editor, 2008.

Malhadas Junior, Marcos Júlio Olivé, Psicologia na Mediação. LTR, 2014.

Mariotti, Humberto. Automatismo concordo-discordo e as armadilhas do reducionismo. Instituto de Estudos de Complexidade e Pensamento Sistêmico (www.geocities.com/complexidade), 2000.

Rosenberg, Marshall B. Comunicação não-violenta. Editora Ágora, 2006.

Stone, Douglas. Conversas Difíceis. Elsevier, 2011.

Ury, William. Como chegar ao Sim. Solomon Editores, 2014.

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