Dificuldades ou transtornos de aprendizagem: O papel do professor no diagnóstico e intervenção

Todos nós professores em algum momento da nossa trajetória profissional nos deparamos com alunos com dificuldades em aprender. Por vezes, a dificuldade do aluno é tão grande que logo já nos perguntamos: será que ele tem “alguma coisa”?

Nem sempre o professor está preparado para lidar com alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem, especialmente porque muitas vezes é difícil identificar a causa. Muitos sintomas de transtornos são confundidos com personalidade ou falta de educação e muitas características normais para a idade da criança são confundidos com sintomas de transtornos.

Esse texto foi baseado em aulas e estudos de professores e autores como a neurocientista e psicóloga Profa. Dra. Nádia Bossa, a neuropsicóloga Profa. Dra. Sandra Lia Rodrigues, a pedagoga e psicopedagoga Profa. Dra. Selma Martinez Lara, o pesquisador Prof. Dr. Lucelmo Lacerda e a psicóloga e psicopedagoga Profa. Dra. Aída Brito. Sua finalidade é explicar de forma simples e objetiva algumas causas que atrasam ou impedem a aprendizagem para auxiliar na identificação e manejo das mesmas, mas ressalto o caráter introdutório deste post. O assunto é extenso e há diversas estratégias além das que menciono para lidar com cada uma das causas. Deixo no final sugestões de pesquisa caso precisem ou queiram se aprofundar mais sobre cada um dos assuntos tratados.

Ajudando o aluno aprender

Para começar, é importante destacar a diferença entre dificuldade de aprendizagem e transtorno de aprendizagem.

O transtorno é oriundo de causas orgânicas, ou seja, podem ser causados por fatores genéticos e/ou neurobiológicos e, portanto, ensina-se estratégias para o indivíduo lidar com os sintomas durante toda a sua vida.

Já a dificuldade não precisa durar por toda a vida. Ela pode ser solucionada, já que pode partir de diversas causas externas e internas, como sono, fome, motivação, ambiente de estudo (na escola e em casa) e até mesmo a metodologia a qual o aluno é exposto.

Desta forma, quando o professor identifica que um aluno não está conseguindo apreender a matéria, o primeiro passo é esgotar as possibilidades de haver uma dificuldade de aprendizagem. O que o docente pode fazer em sala:

- observar se há dificuldade para ouvir ou enxergar;

- observar se o aluno tem suas necessidades básicas atendidas (ex.: se tem sono ou fome constantemente durante a aula);

- atentar-se à possibilidade de haver problemas pessoais ou familiares (ex.: divórcio dos pais);

- aplicar diferentes estratégias e metodologias de ensino-aprendizagem (ex.: dar atividades que considerem os diferentes estilos de aprendizagem, possibilitar atividades lúdicas em grupos maiores e menores).

Se esgotarmos todas as ações acima e a aprendizagem continuar sendo prejudicada e, claro, se percebermos que o aluno possui sintomas de algum transtorno de aprendizagem, o professor deve comunicar o coordenador e o psicopedagogo da escola para conversarem com os pais e possibilitar que a criança seja encaminhada para os profissionais necessários.

Mas como o professor pode identificar os transtornos e como lidar?

Cada transtorno de aprendizagem carrega diferentes sintomas. Muitos professores já conhecem a maioria deles, mas muitas vezes fica a dúvida se aquela característica é um sintoma ou se é própria da personalidade da criança. A chave é perceber se essas características:

- são generalizadas (acontecem constantemente em mais de um ambiente, independente da pessoa ou da situação);

- frequentemente impedem ou atrapalham o desenvolvimento cognitivo, social, motor e/ou afetivo da criança.

Citarei aqui brevemente sete transtornos de aprendizagem, suas características e algumas ideias de como facilitar a aprendizagem para esses alunos.

TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade* *pode vir ou não acompanhado da hiperatividade

- Dificuldade excessiva em focar-se por longos períodos de tempo

- Dificuldade em seguir regras e cumprir prazos

- Dificuldade em memorizar, organizar e interiorizar conceitos

- Dificuldade em fazer conclusões, análise e síntese de atitudes

- Se acompanhado de hiperatividade, pode apresentar impulsividade

O professor pode:

  • Colocar o aluno próximo de si;

  • Modificar o tom de voz enfatizando os aspectos mais importantes;

  • Utilizar mídias audiovisuais nas aulas;

  • Criar uma rotina com um passo-a-passo claro para o aluno não se perder nas suas responsabilidades.

TEA - Transtorno do Espectro Autista

Há várias características conhecidas do TEA, mas nem todos os indivíduos apresentam os mesmos déficits. Por exemplo: há os autistas de grau severo e os de grau leve; os que não falam, e os que falam; os que mantêm contato visual e os que não mantêm. O único déficit que necessariamente está presente em todos estes indivíduos é o da interação social. Porém, é importante conhecer os outros sintomas que comumente associam-se ao TEA:

- Dificuldades na interação e socialização

- Apresenta atrasos no desenvolvimento e dificuldades na comunicação

- Apresenta comportamentos repetitivos

- Gosta de seguir padrões e rotinas (ex.: sempre enfileira objetos da mesma forma; sempre sai da sala pelo mesmo lado)

- Não responde quando chamado pelo nome

- Pode ter hipersensibilidade sensorial (busca esquivar-se de estímulos) ou hiposensibilidade sensorial (busca estímulos constantemente)

- Dificuldade em abstrair

O professor pode:

  • Criar uma rotina e manter um quadro visual para segui-la (com imagens literais que representem as atividades - leitura, escrita, hora do lanche...);

  • Procurar oportunizar a interação entre os colegas (fazer as atividades junto ou perto dos outros alunos);

  • Quebrar padrões para ajudá-los a se tornarem mais flexíveis e tolerantes a mudanças (ex.: sentar em outra carteira; ir para o recreio por outro caminho);

  • Utilizar estratégias de estímulo-resposta para ajudar na compreensão e execução de atividades.

TOD - Transtorno Opositor-Desafiador

- Frequentemente demonstra teimosia e insubordinação generalizada

- Apresenta hostilidade e sentimento de vingança

- Age violentamente (verbal ou física)

- Dificuldade excessiva em seguir regras

- Pode demonstrar atrasos de desenvolvimento, dificuldades na socialização e na comunicação

O professor pode:

  • Conversar com os pais para saber como que a criança é estimulada a seguir as regras em casa a fim de utilizar-se de estratégias parecidas em sala de aula (se possível);

  • Estabelecer regras e rotinas;

  • Deixar a criança extravasar sua raiva após contradição ou frustração - ela não é capaz de controlá-la. Conversar com a criança depois, quando tiver se acalmado;

  • Perceber se o aluno apresenta TDAH ou TEA, comumente associados ao TOD.

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